Split Te Voy A Quebrar/O Cúmplice – processo de criação II

por Alejandro

por Alejandro

Lado: Te Voy A Quebrar

Viajamos dentro do Rio de Janeiro, até Cabo Frio, para gravar nossas músicas com o Davi Baeta, principalmente por recomendação dos amigos do Confronto. Ao mesmo tempo que queríamos gravar com o Davi, tínhamos nossas dúvidas sobre se ele ia nos azucrinar com seu perfeccionismo. Seriam apenas duas músicas, mas das grandes! Iríamos gravar ao vivo e sem metrônomo, mas tanto o Davi quanto amigos nos dissuadiram da idéia. Então, em cima da hora, tiramos os cliques das músicas. Vários andamentos diferentes e, pra piorar, Eu (guitarra, voz), Bruno (baixo) e Felipe (bateria) perdemos uma noite tentando tirar o tempo do primeiro riff de La Raza Errante que tinha o primeiro compasso em 5/4. Acertado os cliques, fizemos uns poucos ensaios tocando com o metrônomo ligado. A gente tá acostumado a tocar tão alto que cada clicada do metrônomo era como um passo do Godzilla. O dono do estúdio veio ver que porra era aquela. Escrevi as letras também em cima de hora e lá fomos nós.

Foi um fim de semana de gravação, com a bateria sendo montada e afinada num feriado na sexta. A bateria foi gravada à parte, em outro estúdio.

No sábado começamos pela bateria e o Davi deixou o metrônomo rolando e eu fiquei tocando pra ir afiando a guitarra guia. Tava tudo no tempo e o Davi disse que pensou “Vai ser moleza!” Foi só apertar o REC e saí brutalmente do tempo. Depois de tentativas frustradas de gravar a guitarra guia no tempo, o Felipe resolveu gravar a bateria só com o metrônomo. E deu certo!

Eu já fiquei bolado pro dia seguinte, mas achei que tendo a bateria como referência seria mais fácil. E foi. Eu e Pedro gravamos tudo com relativa facilidade, e os solos, sabe-se lá como, em apenas 1 take.

O Pedro gravou com uma guitarra Hammer e um cabeçote Peavey 5150. Eu gravei com 2 SGs, uma pra lead com captador SH8-Invader, bem ácida, gritando muito, e outra pra base, usando apenas o captador do braço, um Giannini antigão. Usei um amp tweed Fender Bassman, com um pedal overdrive TS808 pra dar uma empurrada no som.

O vocal era uma incógnita. Ao longo da semana estava com a garganta inflamada, tomando antibiótico e cheguei a perder a voz dois dias antes de gravar. Ainda estava tomando os remédios pra garganta em Cabo Frio mas, no sábado, corrompido pelo Bruno (baixo) e pela cidade que é um oba-oba até para cariocas, fomos pra farra, tomei umas cervas e tequila hell, ficando com a voz muito zoada pro dia seguinte. Coisa de moleque filho da puta que tem mais que se fuder. E assim foi gravado o vocal. Gostamos do resultado e do timbre ébrio da voz. Agora abri um hostel em minha garganta. A verdade é que a gravação e o final de semana que pensamos que seria estressante foi bem tranquila e divertida e o Davi, ao contrário de um cara chato, se revelou uma pessoa extremamente paciente e dedicada.

Voltamos em outro final de semana, apenas eu e Bruno para fecharmos a gravação do baixo e do vocal.

São 3 faixas no total.

Água Santa Blues foi gravada em casa. 3 guitarras: 1 base e 2 solos. É um space blues instrumental. Blues ortodoxo tocado com efeitos mucho locos como delay, chorus, oitavador. O nome é uma alusão satírica a Folsom Prison blues. Água Santa é o nome de um presídeo perto da minha casa (lugar badalado, frequentado por notáveis como Belo, mafiosos ítalo-americanos foragidos, Cacciola entre muitos outros. Praticamente um Leblon do sistema carcerário brasileiro. Inclusive a cantina é uma franquia do BB Lanches). Água Santa é também o nome dos ônibus que eu pego todo dia: 247 e 249. O blues tem sido uma grande influência na banda. Diretamente pra uns e indiretamente pra outros.

The Colour Out of Space é uma composição do Pedro (guitarra) onde eu acresci o riff que abre e fecha a música, bem como a lead guitar. Foi a primeira música em que começamos a trabalhar com efeitos como phase e chorus para as guitarras. Foi um desafio também para o vocal, que apesar de podre e etílico não era berrado e atonal: havia uma melodia tensa, até para entrar no clima. A letra é alucinadamente inspirada num conto de Lovecraft cujo título é o nome da música. O conto fala de uma cor, uma luz que cai do céu na terra e vai inexplicavelmente vampirizando a vida e degenerando mentes das redondezas e espalhando seu raio de ação. É um conto diferenciado do Lovecraft, pois ele não tem o momento da revelação aterradora, não é pornograficamente horrendo, não tem Shubb-Niggurath, Nyarlathotep, Cthulhu ou Byakhees. É um ser alienígena incorpóreo e sorrateiro. Assim, a viagem da letra é pirar em cima do que seria esse ser alienígena, uma luz que se alimenta de matéria orgânica, numa espécie de antifotossíntese. Os seres desse mundo são organismos que sustentam a vida com a luz, e o alien é uma luz/cor que alimenta sua alma com antifotossíntese, tirando da vida orgânica a luz que o faz viajar. É também uma analogia com a idéia de sintético/orgânico que tem a ver com o tipo de som que nos tem inspirado na banda. Somos como esse alien, e nossa viagem, nosso LSD está nos sons orgânicos e não nos sintéticos-artificiais-digitais. A letra foi escrita em inglês, até pra soar mais lovercraftiana. É uma música metadiscursiva.

La Raza Errante é uma música com uma letra politizada. Só que o legal é justamente, em princípio, parecer apolítica, alienante e pessimista. A primeira impressão pode ser de uma letra escapista-derrotista, longe da realidade terrena, space rock, criovulcões que cospem hidrogênio líquido, planetas inóspitos e uma nave interplanetária suicida rumo a um buraco negro após várias tentativas frustradas de colonizar outro planeta… Mas vista além da superfície, e mesmo que não se queira encarar a letra de modo político, ela fala de uma probabilidade pertubadora: apesar de existirem incontáveis planetas no universo, talvez esse seja o único em que possamos viver bem e livremente. Respirar sem aparelhos ou trajes, retirar nossa comida do próprio chão… Nessa letra, essas coisas tão banais como respirar são lendas, histórias que os velhos inventam para as crianças que vivem vagando atrás de outro orbe que sirva para a humanidade, mesmo sem saberem o que é um planeta em que se pode caminhar nu sobre ele. Por isso a história dos velhos. Pois como fazer os jovens procurarem por algo que eles nunca presenciaram? Quem for malandro, vai perceber que essa é uma letra eco-chata salve o planeta Terra, e com orgulho. O suicídio ao fim da música com seu riff de alarme sabbáthico é mais um aviso sobre as consequências do que uma mensagem nihilista. As letras panfletárias parecem desgastadas hoje em dia, principalmente se for sobre um tema ecológico. Assim, como artistas disfarçavam e camuflavam suas críticas à ditadura em suas letras, nós travestimos a idéia de “one life one chance”, “uma humanidade um planeta” para aqueles que pensam que política na música é um saco e necessariamente panfletária. Política pode ser passada até com mais rigor através sentimentos e da arte. Música não é um panfleto e nem um tratado político. E por outro lado, a política não pode ser encarada como “tendência”, um discurso não pode sair de moda se os problemas continuam ou só pioram. Destaques para o primeiro riff doidarasso e com tempo quebrado; vocal herdado do velho e bom black metal, mas transportado pro doom e pro rock n roll; trecho de vocal a la Johnny Cash no meio da música. Letra en castellano. E guitarras com phase ou delay em partes específicas.

Thats All Folks! Vemos vocês por aí, em breve!

 

 

 

 

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