Split Te Voy A Quebrar/O Cúmplice: processo de criação

por Marcelo Fonseca, vocal.Lado: O Cúmplice
As músicas do split com o Te Voy a Quebrar são as primeiras crias d´O Cúmplice. Elas foram compostas entre o fim de 2005 e começo de 2006. Quando montamos a banda, tínhamos em mente unir dois elementos básicos: o velho punk e o velho metal. Não queríamos soar como as bandas clássicas de hardcore ou da gênese do thrash metal, queríamos criar algo que tivesse a nossa cara, por mais que essa escolha de referências seja manjada, e o leque de influencias fique enorme indo de Black Sabbath a Black Flag. E assim foi. Olhávamos nossos cds e víamos que tudo estava lá e a banda por sua própria razão de ser, acabou sendo um tributo a todo rock agressivo que possa ser cantado aos berros.

Pensar a composição dessas músicas é pensar também um momento muito importante para nós. Ela surgiu quando o baterista Ricardinho, conhecido por ter sido membro do clássico No Violence, quis retomar com seus ex-parceiros de Diáspora uma nova banda. Dos ex-membros, Cauê Nascimento foi o único que não quis e, por isso, foi substituído por Felipe. Três dos integrantes originais moravam na mesma casa: Marcelo (vocal), Felipe e Alessandro (guitarras) e ainda compunham metade de outra banda: Intifada.

Ficamos mais ou menos um mês procurando baixista quando o Viny (vocalista da banda Desvio, Deriva ou Deturpação), nos indicou o Renato “Tuco Ramirez” Campana. Lembro que fui eu mesmo que liguei e o convidei.

Morar e compor junto submete que você tenha referencias musicais similares. Lembro que na época nós ouvíamos muito o disco “Blessed Black Wings” do High on Fire, o primeiro disco dos canadenses do Cursed, e Entombed principalmente o “Wolverine Blues” e o “To Ride…”. Ficávamos horas depurando riff a riff desses discos imaginando de que músicas os caras surrupiaram originalmente. Outra coisa que não me sai da mente, ainda mais que passado o tempo para fazer uma avaliação: todos gostávamos muito de crustcore, o Intifada banda que eu o Alessandro tocamos até hoje, começou nesse formato. O Felipe, tocou no Massacre em Alphaville e também tinha essa referência, quanto ao Ricardinho não precisa nem dizer, basta lembrar do cover do Heresy presente no disco do No Violence. Acho que por isso essas quatro faixas são tão urgentes, o espírito punk europeu estava na nossa própria raiz musical. As referencias ao Mad Max não são a toa, é o filme que mais assistíamos e tinha a velocidade, o clima e astral que queríamos refletir nas musicas.

Por outro lado eu quis tentar escrever de uma forma não mais tão panfletária como tinha feito nos tempos de Constrito. As convicções e percepções de mundo ou melhoraram ou continuam as mesmas, mas por outro lado eu tinha vontade de outras formas, de uma outra escrita. Não fui eu quem deu o nome à banda. Eu tinha sugerido “Órfão”, que ate hoje eu não acho ruim, tem um ar de desamparo, de alguém que não conta com ninguém e que não tem nada a perder. Mas os caras da banda e amigos próximos ridicularizaram tanto o nome que perdeu-se a chance. O nome que veio na seqüência por sugestão do Alessandro foi Cúmplice. O artigo “O” foi sugestão minha mesmo. Eu acho bem sonoro, melhor que Órfão na verdade, mas não sei dizer de onde ele tirou, e os motivos que teve em mente pra pensar nisso, mas se alguém tiver uma necessidade desesperada de saber é só escrever e perguntar.

O primeiro som que compusemos, foi A canção do carrasco. Ela reflete um pouco o meu estado de espírito com a Universidade naquele momento. Eu estava acabando, e meio cheio de questionamentos. Vi amigos, se tornando intelectuais de boteco da noite pro dia, sempre com tudo na ponta da língua, mas com muito pouco a saber da experiência vivida. A temática das letras foi desde o principio uma coisa “outsider”. Era assim que eu me sentia na PUC, com meus ideais, mas me afundando em cinismo, prestes a perder minha bolsa de estudos, devido a mudanças na estrutura administrativa, preocupado em pagar o aluguel. Eu precisava de uma musica que eu pudesse dizer que eu não seria uma vitima, que eu não iria tombar, que se fosse pela sobrevivência, eu preferiria matar a morrer.

Lembro que a segunda foi A certeza de todos os dias. O Alê ouvia um disco do Black Hand todo dia, que tinha um riff poderoso no qual ele se inspirou para criar na introdução dessa nossa música. A letra reflete o meu mau humor de novo, não só com o mundo, mas com as relações de trabalho, mas meio que numa auto-paródia de Nativity in Black do Sabbath. Eu gosto muito de Paraíso Perdido de Milton, e quis usar essa metáfora bíblica manjada de Lúcifer como estrela da manhã. Eu estava desolado emocionalmente, previa um momento não muito bom na relação com meus parceiros de casa também, pois coisa ruim estava sendo gestada, então as letras pintavam um horizonte vermelho, apocalíptico fora do chavão crust do Amebix/Discharge. Meus questionamentos estavam em dia, mais do que nunca ao me sentir mais gabaritado em um trabalho onde eu encarava meus chefes como macacos.Arrogante? Prepotente? Eu tinha que continuar me amando, pois senão quem faria? Você?

Ossos aos cães foi em parte feita pelo Renato. Tanto que se vê um riff a la Motorhead de cara, que ele estava ouvindo muito na época. Como foi um dos primeiros sons a pender mais para o lado “punk” da banda, com menos riffs sabáticos, eu quis colocar dentro desse imaginário de marcha dos desgraçados que a letra tem, um trecho de uma banda que eu acho foda, que é o Olho Seco. Na versão final da gravação ela ficou com umas partes repetindo a mais no fim por erro dos caras, que eu aproveitei e improvisei uns berros a mais. Lembro que o Willian (Subtera) estava pilotando a mesa no dia e pirava “brutal!!!”, “brutal!!!”

Um dia eu estava em casa vendo tv, e vi meio sonolento a cara do Erasmo Dias na televisão. A juntar o período que vivia, me deu uma raiva tão grande desse velho nojento que pensei comigo “alguem tinha que colocar uma bomba no rabo desse filho da puta”, depois fiquei pensando que só aqui nesse brasilzão de meu deus um saco de estrume desses mata, violenta, tortura, e se elege deputado. Me deu vontade de matar quando vi isso, de eliminar todos esses putos que ainda estão por ai recebendo pensão como heróis. Foi aí que nasceu Coração Negro, com uns riffs do Renato, do Alessandro e do Felipe.

Num misto de afobação e empolgação decidimos gravar as musicas no estúdio Da Tribo em São Paulo. Muitos amigos nossos elogiavam o trampo deles que é sem sombra de dúvidas memorável. Mas além de serem extremamente profissionais e boa gente, eles tem outra característica superior: a paciência. Vínhamos já de uns meses, quase um ano na verdade tocando, estávamos entrosados e achamos que era a hora. A princípio a nossa pretensão nos levava a querer gravar o disco todo em rolo. Não só caímos do cavalo como, dessa sessão do split que gravamos 6 musicas, 2 foram descartadas no decorrer do tempo.

A sessão de bateria foi complicada. O Ricardo é engenheiro e estava fora da cidade a trabalho justamente no dia que íamos começar. Veio depois de 8 horas de estrada e gravou. Um das músicas da gravação já morreu aí. Deixamos passar batido uma falha de tempo e não teve jeito, deixamos esse som para um futuro distante, talvez bem distante mesmo. Quando entrou a sessão de guitarras e baixo a porca começou a torcer o rabo. O temperamento do Felipe e do Renato não andavam lá dos melhores, existiram muitas, falhas de ambos, compensadas e refeitas depois, o que nos torrou tempo, paciência e dinheiro.

Não convém entrar mais fundo na parte stress e relação. Basta dizer que depois dessa gravação a banda nunca mais foi a mesma. Demoramos quase 3 meses gravando, refazendo e consertando cagadas nossas. Ao fim disso, o Renato debandou e eu nunca mais o vi. O Felipe foi convidado a se retirar um pouco depois. Na vaga dos 2 entraram o Cauê (aquele mesmo que não quis entrar a principio) e o Eduardo Vaz que toca até hoje no L´Enfer. Fizemos mais alguns shows, e compusemos mais alguns sons. O Edu saiu também e entrou a Karen que esta até hoje. Foi um ano bom, mas depois de tanta coisa, não conseguimos selo para nos lançar, conversamos com o Te Voy a Quebrar, amigos nossos de outras roubadas do passado e eles toparam fazer um split. Nisso apareceu o André, o Juberto e o Mugiba,e foi fundada a Asa Negra, querendo comprar a idéia também. Com a gangue formada, foi só esperar o Te Voy gravar, e valeu a pena. Hoje vejo que ficou perfeito, na medida, e me sinto feliz pelo menos em ouvir o master final. Estamos nos preparando para gravar uma demo com os sons novos, e começar e tocar em todo buraco que for possível divulgando esse split com o Te Voy. Estamos abertos a convites, querendo é so chamar.

Sexta-feira 13, fevereiro de 2009.

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