The Ganjas: entrevista

Energia, urgência e intensidade são características que provavelmente qualquer um espera do bom rock ‘n’roll. No entanto, ainda que as duas primeiras qualificações faltem ao The Ganjas, banda de Santiago do Chile, isso não os deprecia em nada. Ganja é apenas mais um de muitos outros nomes para maconha. E é exatamente essa erva que melhor descreve o som desta banda. A música é intensa e inebriante mas, de um modo hipnótico e onírico, envolvente e relaxante. Não é a toa que praticamente todo som que produz ressonância com a erva é de certa forma uma influência ou ao menos lembra o The Ganjas: o space rock vertiginoso de um Hawkwind, as canções idílicas e nebulosas de um Pink Floyd, a suavidade que reverbera pelos sete céus de um Cocteau Twins, o ambient house, o dreampop, o shoegaze… E eles ainda tocam dub! Mais maconheiros impossível. Claro, tudo isso está relacionado à psicodelia, afinal a maconha, assim como o LSD, o haxixe e os cogumelos, estava entre os alucinógenos benignos e místicos, de expansão da mente, diferente da heroína, cocaína e do nosso tão querido crack de hoje em dia. Mas fiquemos com a maconha, com la ganja.

Não há testosterona, nem a energia máscula, negra, nem tensão e clímax – urgência rock ´n’ roll! Não. Estamos falando de música feminina, materna, que te envolve como um útero; tridimensional e suave, mas intensa graças às suas várias camadas que oscilam como um mar grandioso e calmo. É o que o Brian Eno chamaria de espaço psicoacústico.

A voz é masculina busca a androginia através da delicadeza e da suavidade. O ar passa acariciando as cordas vocais. Guitarras, violões, sintetizadores, teclados, baixo, bateria, percursões oscilam e povoam esse ambiente musical num fluxo contínuo, e a voz permanece sonhando impertubável, imersa em tudo.

Enfim: maconha! Maconha, útero materno, planícies e mares sonoros em várias camadas superpostas afagadas por brisas. Isso é o The Ganjas e tudo que forma a linha-mestra de suas influências. Cabe a quem escuta entregar-se a esse Panteísmo sonoro, recostar-se (como eles convidam em um de seus discos – Laydown) e formar parte neste Todo. E é sempre bom que exista em nossas mentes perturbadas pelo punk e o metal um espaço para bandas e experiências como esta.

Comegato do Yajaira e atualmente no Electrozombies

Comegato do Yajaira e atualmente no Electrozombies

 

The Ganjas tem sua origem no começo do novo milênio. Foi fundada pelo Samuel Maquieira (Sam, voz e guitarra), Rafael Astaburuaga (Pape, baixo e voz) e Aldo Benincasa (bateria). Já passaram pela formação da banda muitos outros músicos, como Miguel Montenegro (comegato) – baixo e voz no Yajaira e hoje toca e canta no Electrozombies –, que nos tempos iniciais de power trio entrou para adicionar uma segunda guitarra. Foram 10 músicos no total, entre convidados. Hoje contam com a segunda guitarra estável de Pablo Giadach.

Conversei com Sam (vocal e guitarra) e Aldo (bateria), dois chilenos supersimpáticos. Assim que puder, já combinamos de tomarmos uma cerveja juntos. Esperamos que seja no Chile! “Ojalá!”

Asa Negra: Como me descreveriam (ainda que eu saiba que palavras não são sons) o tipo de sonoridade que buscam no The Ganjas?

Sam: Sempre buscamos um som expansivo e onírico, bem no estado da “ganja” (marijuana). Inspirados no rock tentamos criar um tipo de transe.

Asa Negra: Que estilos e bandas são influências pro The Ganjas?

Sam: Desde o blues até o dub passando pelo metal, psicodelia, música inglesa como o Stone Roses, muito anos 90, shoegaze, Tom Petty, Soundgarden, Neil Young & Crazy Horse… te poderia encher 100 páginas com bandas… Escutamos muita música!

Asa Negra: A música do The Ganjas me parece uma “experiência psicotrópica, mas de um sonho tranquilo”. As jams da banda têm um efeito quase como de uma música ambiente, um ambiente hipnotizante, calmante. De onde vêm as influências? Os temas idílicos, de infância perdida, surreais, espaciais, de fluxo de consciência e as vozes suaves, sem testosterona de bandas como Pink Floyd nos anos 70, Cocteau Twins nos 80 e bandas da cena shoegaze dos 90? Quais são as ideias musicais?

Sam: As jams são para abrir a mente e o coração sem nenhum filtro frente ao momento. Refletem a alma da banda. Aparentemente, por momentos, somos pessoas bem tranquilas, ja, ja, ja!… Seriamente, creio que tem a ver com sair do lugar de onde está por meio da música.

Asa Negra: Que função têm as palavras na música do The Ganjas? Que motivação existe ao se escrever as letras?

Sam: Em geral as letras vêm depois da música. As palavras saem descrevendo a sensação musical da canção. Às vezes são como histórias de sonhos, visões psicodélicas, romances, destruições futurísticas…

Asa Negra: Que ambições vocês têm com a banda? Socialmente, musicalmente, comercialmente? Como tudo isto interage?

Aldo: Socialmente seria lindo que os discos que estamos lançando fiquem como algum tipo de referente na jovem historia musical chilena. Isso é algo que temos notado com o tempo, que os mais jovens se aproximam para nos contar da influência da banda sobre eles. Isso é muito bom, esperamos que siga crescendo. Obviamente isto está ligado ao crescimento musical e de alguma forma, em menor grau, à popularidade que também cresceria.

Asa Negra: Que instrumentos musicais e acessórios utilizam? São importantes para determinar a sonoridade da banda?

Sam: São muito importantes para determinar nosso som. Gostamos dos instrumentos antigos, amplificadores antigos valvulados. Creio que os instrumentos eram mais bem feitos há anos atrás. O novo disco soará diferente já que está composto com base no som de uma guitarra RIckenbacker de 12 cordas que não utilizávamos antes.

Asa Negra: E mesmo com a mudança para uma Rickenbacker 12 cordas a dinâmica do shoegaze e do dub seguem as mesmas? Se vejo uma guitarra como esta na minha frente, sinto vontade de sentar a mão nas cordas! heheehe… Penso em George Harrison tocando A Hard Day´s Night ou, pior, no Pete Townshend. O Tom Petty mesmo, que vocês citaram. E toda sorte do mundo ao Sam para afinar sua nova guitarra!

Sam: Bem, a Rickenbacker foi uma decisão por explorar um novo som para os Ganjas, um som que amamos por músicas como Harrison, Tom Petty ou os Byrds. A verdade não é que vamos soar como eles, mas sim que quero experimentar mais a camada sonora shoegaze de um modo mais natural, sem utilizar tantos efeitos. E isso é o que a Rickenbacker 12 cordas te dá. Para afiná-la comprei um afinador “de puta madre”, jajajaja!

Rickenbacker 12 cordas e Musicman

Rickenbacker 12 cordas e Musicman

 

Asa Negra: Ah, sim… A modernidade ajuda até mesmo a lidar com a velharia! E é muito difícil comprar instrumentos e equipamentos no Chile? Existem boas marcas nacionais ou alguém que construa os “handmade” ou equipamentos de “boutique”?

Sam: É uma busca eterna, tem que ter sorte!… Igualmente existem equipamentos handmade no Chile, não muito bons para o meu gosto. De todos os modos, tenho um técnico muito bom em caso de emergências.

Asa Negra: Que importância teve a produção, a mixagem, masterização no resultado final de suas obras? Trabalham muito as músicas no estúdio?

Sam: Muito importante! Trabalhamos muito os discos para que sejam uma boa viagem. Passamos muito tempo nas mixagens e masterizações para que soe como imaginamos.

Asa Negra: Como está a popularidade do cd e do vinil no Chile diante da mp3, myspace etc?

Aldo: Os cds originais não se compram muito, cada vez menos. O vinil está em moda e é muito comprado, mas é a internet que está na dianteira de longe. No entanto, The Ganjas não pode se queixar com sua venda de cds. No meio independente, um dos bons aspectos é que se alguém gosta da sua banda, comprará o cd mais cedo ou mais tarde. Sabemos também que o nosso site no myspace é muito visitado, muito mais que qualquer banda indie e isso é um apoio crescente. Estamos com a ideia de editar o próximo disco de abril de 2009 no formato vinil. Gostaríamos de averiguar no Brasil os custos. Talvez pudesse nos ajudar.

Asa Negra: Posso ajudar. A fábrica de vinil fica na minha cidade. Chamava-se Polysom e esteve fechada por alguns anos e agora está reabrindo com um novo dono, parece que em colaboração com os antigos donos. Acho que estão primeiro prensando discos do próprio selo e a previsão é que no primeiro semestre de 2009 ainda abram para pedidos de fora. Mas pelo visto a fila já é grande. Mantenho vocês informados, até porque isso também muito me interessa! Mas voltando… Com que bandas costumam tocar?

Aldo: Existem muitas bandas antigas que nos acompanham através dos anos: Matorral, Guiso, Perrosky, Casino, Hielo Negro, por exemplo. Mas de um tempo pra cá decidimos nos rodear de novas bandas, que convidamos para abrirem os shows. Isso nos mantém vivos e em comunicação com os mais jovens. Os mais destacados são Howlers, Watch Out, Follakzoid, Intimate Stranger, Rosamari, Cindy Sisters etc… Bands muito boas de garotos de 20 anos.

Aldo e Sam (no chão)

Aldo e Sam (no chão)

 

Asa Negra: Como são os shows underground no Chile? Existem muitos lugares para tocar? Em que condições?

Aldo: Não são muitos. Alguns “caíram”, mas imagine que em Santiago existem uns 10 lugares centrais que repartem os shows da maioria das bandas independentes. A capacidade vai desde 50 pessoas até 400. Existem outros lugares maiores, mas esses são reservados para ocasiões especiais. Alguns tem um som muito bom, mas devem ser uns 3 ou 4. São justamente esses os que mantêm a melhor forma de tratar as bandas.

Asa Negra: Como é a relação dentro da cena chilena? Tocam com bandas de outros estilos? Existe uma estratificação forte nas cenas musicais?

Aldo: Nós procuramos nos misturar o máximo possível. Não temos problemas com quase ninguém. Mas existe algum tipo de discriminação. Às vezes nos dizem que somos acomodados ou que temos dinheiro etc., coisa insólita porque há dias em que não temos nem para pagar a luz! No Chile se tende a desqualificar quem está indo bem, ainda que a maioria goste bastante de nós.

Asa Negra: Existem festivais importantes no underground?

Aldo: Alguns, mas nenhum pode se perpetuar. Existiu o festival indie Pulso, só 2 anos; também Circus Rock, com 3 versões; Neutral, 2 anos; o de AlgoRecords, já tem 3 anos. Não mais que isso.

Asa Negra: Como estão os selos independentes no Chile? Crescem ou têm dificuldade? Como é a relação de vocês com seu selo Algorecords? Sentem vontade de ir para uma major?

Aldo: Sempre seria bom passar para um selo maior. Sempre e quando se respeitem as nossas inquietudes. Não somos fanáticos da pobreza e da independência só porque sim. Nossa relação tem sido boa com AlgoRecords. Somos amigos há quase 10 anos e temos crescido juntos. Apesar do crescimento ser lento, se avança.

Asa Negra: Como é a relação com as cenas de outros países sul-americanos? Sei que já tocaram no Brasil. Como foi? Tem bandas daqui que agradam a vocês?

Aldo: Nós vimos o Autoramas e o Forgotten Boys, ambos muito gente boa. Tocar com pessoas de outros países é o melhor que pode acontecer e viajar é um prêmio maravilhoso, ser músico 100%. Tocamos muito na Argentina, na Colômbia, no Brasil há pouco e agora vamos ao Uruguai.

Asa Negra: O que pensam da relação cultural, especificamente musical, entre o Brasil e os países hispanoamericanos? A língua é uma barreira? Existem outras fronteiras?

Sam: Acho que deveria ser mais fluente. Não acredito que o idioma seja uma barreira, é apenas música. Descobrimos que o Brasil também é muito rock ‘n’ roll, com boas bandas. gostaríamos que fosse mais fácil locomover-se dentro da América do Sul. Os festivais são chaves para que isto aconteça.

Asa Negra: The Ganjas se origina no underground. No entanto, já tocaram com grandes nomes tão diversos como Helmet, REM, Jesus and the Mary CHain… Tocaram em grandes festivais, como há pouco tempo em janeiro de 2009, na Segunda Cumbre del Rock Nacional, com 80 bandas e 50 mil pessoas. Se olharem pra trás, o começo da banda, o que sentem? Os tempos mudaram? Saíram do underground ou não? Mudaram o modus operandi da banda em relação àqueles que escutam ou admiram a banda?

Aldo: A única coisa que mudou foi que estamos levando mais a sério na hora de planificar. De resto, é basicamente a mesma coisa. Entre nós, sempre foi um prazer tocar, e isso é o mais importante: em primeiro estão os integrantes da banda. Você tem que estar à vontade e logo transmitir isso a quem escute. As pessoas têm crescido com a gente e nos acompanham muito. Os meios obviamente nos respeitam mais e temos crescido como músicos, não sendo ninguém.

Asa Negra: Pergunto isso a vocês porque existem bandas que saem do underground, conseguem muita popularidade e atraem todo o tipo de público. Quando o Soundgarden saiu do underground e foi para o mainstream, ainda tinham as pessoas que gostavam e acompanhavam a banda, que faziam parte da cena de onde eles vieram. Mas também pessoas que viram o Chris Cornell na MTV e o tomaram por sexy symbol e passaram a gostar da banda por este ou por outros motivos superficiais.

Claro que também existem aqueles que não eram do “mundinho underground” e que viram a banda pela tv e gostaram dela por motivos mais intensos ou que puderam se tornar mais intensos. Não se trata de uma apologia ao underground ou à ideia estúpida de ser financeiramente pequeno para poder ser digno, nem de demonizar o sucesso comercial e a popularidade. Mas trata-se de entender, por exemplo, que efeito pode ocorrer sobre uma banda que tocava para dezenas de pessoas e passa e tocar para milhares e, quem sabe, para dezenas de milhares; ou de uma banda que fazia o que bem queria e agora tem que conviver com cláusuls contratuais que restringem a liberdade etc.

A diferença, por exemplo, de um ouvinte que compartilha do universo do músico e da banda, que vai se interessar pelo resultado do The Ganjas passar a tocar com uma RIckenbacker de 12 cordas e a garota de 16 anos, mas está encantada coms os cabelos do Sam. Essas coisas ocorrem em maior ou menor proporção desde sempre. Desde os Beatles, Zeppelin, Nirvana, e acontece até hoje com bandas que não precisam ser, assim, enormes e que podem fazer parte da cena independente. Isso acontece, na devida proporção, com vocês? A proximidade e a identificação com o público, a autonomia da produção musical, estética e discursiva… Nada, de tudo isso, sofreu alguma perturbação, ou exigiu uma nova postura para manter o que interessa e mudar o que não interessa mais?

Sam: Nossa postura sempre tem sido fazer a música que gostamos. Jamais nos pusemos a compor canções pensando se o público vai gostar ou não. Temos a proximidade com quem não sabe o que é uma Rickenbacker e público que desfruta quando nós estamos desfrutando, se não, não teria nem efeito e nem sentido a nossa música.

Asa Negra: Sam y Aldo, muchísimas gracias por la entrevista. Ojalá logremos todos lanzar nuestros discos en vinil para este año! jejeje. No les voy a pedir que digan unas últimas palabras o manden un mensaje a los brasileños pues esta parte de la entrevista es casi siempre aburrida!, por más interesantes que sean los entrevistados.

 

INFO:                                           

Discografia:

Conheçam também o projeto acústico de folk do pessoal do The Ganjas, o The Versions. Altamente recomendado. 

Anúncios

1 Comentário

  1. grande The ganjas, si son chilenos, son guenos!


Comments RSS TrackBack Identifier URI

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

  • Agenda

    • outubro 2017
      S T Q Q S S D
      « out    
       1
      2345678
      9101112131415
      16171819202122
      23242526272829
      3031  
  • Pesquisar